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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Rita Benneditto no show Tecnomacumba - 20 Anos de Axé, na Praça Maria Aragão


Rita Benneditto volta aos palcos de São Luís com o show “Tecnomacumba” para celebrar

20 anos de resistência e axé e o aniversário da cidade. O show acontece dia 9 de setembro, às 22h, na Praça Praça Maria Aragão - Beira Mar.

Para essa grande festa, Rita convidou os lendários multi-artistas Dzi CroquettesCiro Barcelos, que assina a direção artística, e Claudio Tovar, responsável pelo figurino da cantora. A noite ainda promete uma grande gira, com as participações especiais do artista visual Fernando Mendonça, da bailarina Kiusam de Oliveira e do diretor, ator e bailarino Ciro Barcelos.

O ano de 2003 representa um marco na vida de Rita Benneditto. Na ocasião, a cantora maranhense, cujo timbre é um dos mais expressivos da nossa música e sua voz uma das maiores forças de resistência em nosso país, estreava um show no qual jogava luz sobre aspectos da nossa ancestralidade – e que muito dizem da nossa identidade enquanto Cultura e Nação. O show era o “Tecnomacumba” e o nome não poderia ser mais apropriado. No repertório, pontos e rezas ligados às religiões de matrizes africanas mesclados a temas da MPB, de autores como Gilberto Gil e Jorge Ben, em que entidades-símbolos da nossa fé são louvados/evocados. Tudo isso apresentado com arranjos modernos, em roupagem eletrônica, que saía então dos clubes e ganhava de vez as pistas mundo afora. E a iniciativa rendeu frutos: 1) são quatro os registros, um CD de estúdio e dois ao vivo, sendo um deles em DVD e o videoclipe 7Marias; 2) foi longe (até em Dakar, no Senegal, o show já foi visto); 3) rendeu prêmios como o Rival Petrobras (show) e o da Música Brasileira (melhor cantora). Por uma coisa a artista não esperava: que o show seria apresentado durante 20 anos e não dá sinais de esmorecer. Mesmo durante os dois anos de recolhimento devido a pandemia da Covid que assolou o mundo, Tecnomacumba, manteve-se ativo em formatos online, e agora retorna aos palcos com força e fé.


Com Tecnomacumba, Rita provou que o elo que une nossa música à eletrônica tem como alicerce o bater dos tambores, cujos ecos reverberam para além dos terreiros, passando pelas patuscadas e rodas de samba que animam os fundos de quintal,  e as pistas de danças nos grandes centros do Brasil e do mundo. Acontece que um show é também um organismo vivo. E pulsa. Ao longo desse tempo, Tecnomacumba não se manteve estático. Não em se tratando de Rita Benneditto. O show tornou-se uma grande referência para as novas gerações, amadureceu – assim como sua intérprete – e possibilitou a ela experimentar, ousar e, por que não, reinventar-se.


A cada ciclo, novas transformações acontecem em muitos aspectos. Para a celebração desses 20 anos de axé, por exemplo, Rita convidou os multi artistas Ciro Barcelos e Claudio Tovar, do lendário e vanguardista grupo Dzi Croquettes”, para juntos respectivamente atuarem na direção artística e figurino do show, promovendo uma conexão entre gerações que permanecem na luta contra preconceitos e paradigmas comportamentais vigentes até hoje em nossa sociedade. O adereço de cabeça, inspirado em um cocar indígena, foi criado especialmente para Rita por Victor Hugo Mattos, estilista que vem se destacando no universo fashion atual. A iluminação do espetáculo, elaborada a partir de referências de cores e movimentos dos orixás, leva a assinatura de Daniela Sanchez.


Outras transformações presentes, dizem respeito às intervenções que acontecem durante o show, como a print-performance do multi artista Fernando Mendonça, que a cada apresentação escolhe um orixá para pintar, assim como a intervenção da bailarina Kiusam de Oliveira e do diretor, ator e bailarino Ciro Barcelosque celebram os orixás Oxum e Oxóssi com belas coreografias.


A banda Cavaleiros de Aruanda, que acompanha a artista desde a estreia do projeto, conta agora com os músicos Fred Ferreira (guitarras e vocais), Wagner Bala (contrabaixo e vocais), Ronaldo Silva (bateria, programações eletrônicas e vocais) e Júnior Crispim (percussão e vocais). E no repertório, novas canções como “Mamãe Oxum” (Domínio Público) e “7Marias”, composição da própria Rita em parceria com Felipe Pinaud, lançada em 2018, quando o show completou 15 anos. Hoje o videoclipe “7Marias” já atingiu a marca de 4 milhões de visualizações.


Tecnomacumba permanece sendo um manifesto de brasilidade e uma intervenção cultural, que em 2022, foi referência para o enredo “Fala Majeté - As setes chaves de Exu” da escola de samba campeã do carnaval carioca, a Acadêmicos do Grande Rio. Rita foi destaque na escola no carro alegórico “Exu - A boca que tudo come”. “Participar do desfile da Acadêmicos do Grande Rio me deu a certeza do caminho que venho percorrendo na luta.


pelo reconhecimento da cultura e religiosidade afro-brasileira. Saber que Tecnomacumba é referência do enredo criado pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, me deixou em êxtase. Exu riscou e firmou ponto na maior avenida do mundo. Exu venceu e nós vencemos com ele”, diz a cantora.


A longevidade desse bem-sucedido projeto pode ser explicada a partir da junção de alguns fatores cruciais. O primeiro deles talvez seja a perseverança. Da artista, dos músicos e da equipe por ele responsável. Perseverança que ganhou da crítica a acolhida necessária para seguir adiante. E que encontrou no contato com o público a guarida para ir além. Muitos são os espectadores que já perderam a conta das vezes que assistiram ao show. E entre os fãs do projeto estão grandes colegas de cena e de ofício. Gente como Maria Bethânia (que participou do CD ao vivo e do DVD), Alcione, Ney Matogrosso, Leci Brandão, Sandra de Sá, Margareth Menezes e companheiros de geração como Chico César, Teresa Cristina, Mart’nália, Marcos Suzano, Davi Moraes, Zeca Baleiro, entre outros.


Entre os colegas ilustres que reconhecem o talento da artista está o cantor e compositor Caetano Veloso. No texto escrito para o DVD do show, o baiano não só destaca as qualidades vocais da intérprete como confirma sua fama de visionário ao prenunciar: “Este disco tem um futuro intrigante e pode vir a dizer mais do que parece agora”. Caetano tem razão. O projeto  diz muito sobre um país que não pode ser perdido, apagado. Ainda mais (e sobretudo) no Brasil de agora.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O Encanto de Rita Ribeiro

Rita Benneditto está de férias em São Luís. A cantora veio rever familiares, amigos, se reabastecer de afeto, cultura e da culinária maranhense, mas também veio articular o lançamento na cidade, do seu mais recente disco, Encanto (distribuído pela gravadora Biscoito Fino). O lançamento oficial será em março no Rio de Janeiro.

Encanto é o primeiro após 8 anos do lançamento de Tecnomacumba (2006) e marca os 25 anos de carreira dela, com inéditas e releituras. Todo o disco remete à cultura maranhense, seja em arranjos ou outros elementos. Um disco que ficou como ela queria e que traz três músicas em parceria e releituras de Gilberto Gil (Extra), Roberto Carlos (), Djavan (Água), Jorge Benjor (Santa Clara Clareou) e Villa-Lobos (Estrela é lua nova), com participações de Frejat, Arlindo Cruz e Reggae B e produção de Felipe Pinaud.

Está previsto também para este início de janeiro o lançamento de Som e fúria, disco que gravou com a cantora Jussara Silveira, em uma produção de Alê Siqueira e direção artística de José Miguel Wisnik e que traz como principal elemento a voz. A obra foi toda gravada em uma caverna na Chapada Diamantina.

Rita fica encantada ao falar do novo disco. E para defini-lo ela recorre a elementos e situações do local em que gravou Lençóis, e da cidade de sua inspiração, São Luís. Entre metáforas e num linguajar que esbanja lirismo, Rita diz que o CD é a marca de um renascimento, de um rebatismo e de fé, em todos sentidos. Tanto no sentido de esperança, quanto de mudar para melhor., não por acaso, é a faixa título do disco.

O disco, porém, ela trata de dizer, não é religioso, mas a música é a sua religião. Encanto é o sexto álbum solo e expõe a devoção de Rita à deusa música, pondo fé num som afro-brasileiro de alcance universal. “O CD tá bem diversificado com tecno, macumba, dance, reggae, pop, samba, rock. E é permeado pela seta que aponta e no meio da história se espalha para todos os lugares. É a caboca Jurema com força total”, diz ela referindo-se a duas vinhetas que tem no CD.

“Uma das vantagens ao longo da carreira é que sempre realizei projetos do jeito que imaginei. Eu vejo o disco como um grande quadro por conta das nuances, dos traços, do caminho que foi traçado até chegar ao resultado final. Uma dessas imagens são as raízes de mangue são bem estruturadas embora estejam em solo de maré, e essa estrutura se espalha. Assim é o meu trabalho musical. Faço música para ela se espalhar pelo mundo. Músicas que chegam a qualquer lugar. Esse trabalho tem muita verdade e está recheado de referências maranhenses”, compara Rita.

Outra comparação feita por ela é quanto aos movimentos das areias observadas nos Lençóis Maranhenses, local onde foram feitas as fotos para o CD. “Observar esse movimento foi uma das viagens que fiz e eu quis ir para um lugar encantado que tenha movimento, mudança, como o que aconteceu comigo a começar pelo meu nome”, reforça.


Faixa a faixa por Rita Ribeiro
1. Centro da Mata - É um tema de domínio público adaptado por Rita com Felipe Pinaud. É uma vinheta que fala da caboca Jurema, que a acompanha desde o primeiro disco. “Achei importante abrir o disco com uma vinheta. É uma caboca do mundo que transcende o espaço. É como se ela se preparasse para atirar a seta para todos os lugares, e tempos e conexões, com uma levada sutil do Boi de Pindaré.
2.Guerreiro do Mar – Música de meus parceiros e que representa o encontro entre energias masculina e feminina. Energia de ogum com Iemanjá. Essa música tem uma pegada rock com arranjos do rock progressivo, meio Pink Flouyd, uma levada de reggae. Quis trazer esse ponto. Foram viagens musicais sonoras.
3. Santa Clara Clareou – Faço uma referência ao Tecnomacumba. É quase uma oração, com arranjos baseado no ritmo do tambor de mina, homenageando essa manifestação, tão importante para a minha formação artística.
4.Pedra do Tempo – Falo da figura de Xangô, de toda a simbologia dele. Te, uma vinheta de Villa Lobos. Como eu já cantei essa música em corais, eu quis trazer essa memória afetiva.
5.Água – Queria muito fazer uma música que retratasse o elemento água pela importância que ela tem para a humanidade e para chamar a atenção sobre ela. É uma música de Djavan. Fiz também um arranjo trazendo a cultura maranhense no toque das caixeiras do Divino.
6.Banho de Manjericão – Inspirada no ritmo do terecô maranhense. Convidei o babalorixá Oboromin T’ogunjá, que incorporou o Pai Benedito das Almas de Angola e deixou uma mensagem de amor e de fé. Da fé que está dentro da gente. Um convite à transformação, à mudança... e eu faço isso nos meus trabalhos, que é ter uma visão mais ampla, mais transcendental.
7. Babalu - É um clássico da música. Quis trazer essa música mais anos 70 e é a primeira vez que canto uma música em espanhol, mas acho que está muito honesto. Babalu é um dos nomes do orixá Obaluaê.
8.Estrela é Lua Nova – É a mais antiga do disco. De Villa-Lobos em que ele . expõe a sua erudição. Ele brinca com a palavra macumba.
9.Fé – Sintetiza o Encanto. Sou cantora de fé, mas não de dogmas. Não sou presa a nenhuma religião. Estou ligada na música como religião, como elemento transformador. E essa música tem uma força, por ser de Robert Carlos e por termos feito um arranjo rock’n’roll, que é atemporal e todo mundo curte.
10.Extra – Tem a participação da banda Reggae B, (integrantes do Paralamas do Sucesso), comandada pelo Bi Ribeiro e aí eu quis resgatar para fazer a base da música. É um reggae bem 4x4, mais roots, quis fazer essa ligação com o reggae do Maranhão. A música fala também de transcendência, de Deus. Convidei o padre jamaicano rastafári Priest Tiger, que encarna o mensageiro da fé e quando traduzimos a mensagem dele vimos que se tratava do Salmo 24 (oração do Evangelho). Tudo a ver com a música, que fala do Deus que está dentro de nós.
11.Filha de Tupinambá – Outra vinheta de Jurema, porque como eu te falei, a seta está lá no início e prepara o CD. Toca nova vinheta, reafirma a origem de Jurema.
12.De Mina – É uma composição de Josias que eu adoro e que fala do tambor de mina, que me recoloca na minha aldeia. Fui gravar a voz no estúdio do Frejat e pensei que podíamos convidá-lo. O Frejat toca guitarra tem a pegada rock, que é a característica dele e ele topou e adorou participar, pirou nos arranjos. (N.R: essa música também tem a seta de Jurema chegando a seu destino final).
13. O que é dela é meu – É um samba do maravilhoso Arlindo Cruz em que a gente celebra a vida. A gente se encontrou em um trabalho e ele me disse que tinha uma música pra mim. Pedi pra ele mostrar e adorei. Disse que queria gravar no meu disco, daí convidei ele pra gravar e ele adorou. Não só cantou, como tocou banjo, bateu palma. Ele gosta muito do Tecnomacumba e fez essa brincadeira evidenciando a cultura africana.